Conversando sobre: Vanessa e sua transição  

Conversando sobre: Vanessa e sua transição  

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antes da transição

É hoje! Começo aqui a série de entrevistas com pessoas que estão passando pela transição ou que já passaram por ela. Acho muito importante ouvir quem está tendo ou teve experiências com esse processo. E quem estreia a nova categoria do blog é Vanessa Pereira, do @projeto_cabelonatural.

Comecei a seguir a Vanessa logo no início da minha transição, quando eu ainda usava meu próprio nome no ig do Instagram. Um dia decidi excluir minha conta e perdi o perfil dela, dias depois de saber que ela tinha feito o bc! Procurei até acha-la novamente. Acompanhar essa moça fez uma diferença enorme no dia a dia da minha transição pelo simples motivo de Vanessa ser super sincera em relação a produtos e ao que ela mesma estava sentindo. Foi e é uma das minhas maiores inspirações!

Atualmente
Vanessa atualmente

 

“Uma vez ouvi falar que ninguém nasce negro no Brasil, porque um negro sempre é chamado de “moreninho”. No inicio da transição eu era “moreninha” e agora me descobri como mulher negra”

 

 

Vanessa conta que entrou na transição capilar porque estava planejando sair do país desde julho de 2016. A partir daí surgiu a dúvida: como será que iria fazer para manter o cabelo liso lá?. “Fiquei com medo de misturar químicas e ter um corte químico então comecei a cogitar a possibilidade de deixar meu cabelo natural.  Minha última progressiva foi dia 29 de outubro de 2016 e em dezembro eu decidi finalmente entrar em transição”, conta.

Foto no dia do BC
Dia do bc

No dia 23 de março deste ano, Vanessa fez o bc. “Eu não aguentava mais as duas texturas. Estava me sentindo péssima e achei que não iria me sentir pior se cortasse. Apesar de sempre ter tido o cabelo longo e ter achado estranho ele curto, foi a melhor decisão que tomei. Me senti bem melhor depois do big chop”.

Diasdecacho: Por quanto tempo você alisou o cabelo e porquê?

Vanessa: Lembro que quando eu era criança, adorava soltar meu cabelão cacheado e ficar dançando loucamente. Mas quando entrei na escola, via que eu era diferente e estava sempre de tranças. Minha mãe também sempre reclamava do meu “cabelo ruim” e que dava muito trabalho para cuidar. Chorei tanto pra ela alisar meu cabelo que comecei a passar relaxamento quando tinha 8 anos. Então foram quase 20 anos entre relaxamento,alisamento,henê e progressivas.

D: Qual é a parte mais difícil da transição?

Vanessa com 6 anos
Fofíssima com 6 anos

V: É difícil escolher uma só! (risos). Acho que a pior parte foi a baixa autoestima. Eu me sentia a mulher mais horrorosa do mundo com o cabelo com duas texturas.

D: Está há quanto tempo sem química? O que faz para disfarçar as duas texturas?

V: Estou há 10 meses sem química e fiz o big chop com 5 meses. Enquanto estava com as duas texturas, eu tentei fazer algumas vezes texturização com papel higiênico, coquinhos e bigudinho. Nenhuma ficava boa (elas foram minhas maiores frustrações durante a transição) e eu não tinha muita paciência para fazer então geralmente eu só amassava bem o cabelo para ficar meio ondulado.

D: Pensou em desistir?

V: Sou muito cabeça dura! (risos) Isso não passou pela cabeça em nenhum momento. Quando eu decidi entrar em transição, já cortei metade do cabelo, já para não correr o risco da tentação de usar a progressiva novamente.  No começo eu só queria meus cachos por preocupação, mas em algum momento isso se transformou em algo muito maior.

A libertação das químicas e chapinha se transformou num grande sonho. Sem contar a auto aceitação e empoderamento. Isso tudo me fez continuar.

D: Como o Instagram te ajuda?

V: O Instragram me ajudou muito ao me mostrar que tinha muitas mulheres passando por esse processo também. Lá eu achei várias dicas e uma grande fonte de apoio e inspiração.

D: É mais difícil achar produtos fora do Brasil?

V: Aqui na Nova Zelândia é quase missão impossível. Eu não encontro cremes para pentear nem de marcas famosas como TRESemmé e Dove. Produtos específicos para o nosso tipo de cabelo é impossível. Como o país não fabrica esses produtos, eles importam apenas o que sabem que o povo vai usar.

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Vanessa Pereira tem 27 anos, e é de São Paulo-SP, mas atualmente mora em Wellington, capital da Nova Zelândia. Desenvolvedora de software, ama assistir séries e tem um blog literário chamado Nerds Leitores e um canal no Youtube .

por Bruna Dias 

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Invasão de corpo e alma

Invasão de corpo e alma

Oi, aqui quem fala é o seu cabelo. O novo, porque o antigo já era! O que você deixou respirar, voltei por você. Vim agradecer, a gente não se via há uns 4 anos né?! Nossa, você mudou tanto…

Obrigado por gostar tanto de mim, eu achava que você me odiava! Mas não estava triste, meu colega estava feliz com você e parece que você gostava muito dele. 

Te vi chorar naquele dia que cortou, não, não precisa me explicar! Eu sei que não foi arrependimento.

 Ah, espero ficar mais tempo, estou aproveitando todos esses cremes e shampoos novos. Tá sendo uma experiência boa e divertida. Não vou nem me despedir. 
Estamos juntos, 

Cabelo da Bruna

Cronograma capilar  – Parte 1

Cronograma capilar  – Parte 1

cabeloComo já falei em outros posts, a transição capilar trouxe muitas novidades para a minha rotina de cuidados com meu cabelo. A principal delas foi, sem dúvidas, o cronograma capilar. O cronograma nada mais é do que uma agenda de tratamentos para recuperar os fios ou para mantê-los saudáveis.

É super fácil e os resultados são visíveis a cada semana: força, maciez e crescimento. Convido vocês a conhecer esse processo! Vamos lá?

O querido cronograma

Primeiro, temos que entender os 3 principais pilares do cronograma capilar: hidratação, nutrição e reconstrução.

Hidratação: Eu sempre achei que todos os cremes de “massagem” fossem para hidratação, comprava qualquer um! A hidratação é sim fundamental para todo tipo de cabelo. Essa etapa é responsável por repor a água natural dos cabelos, deixando-os mais macios e brilhosos. É bem fácil, alguns cremes trazem a opção de passar por 3 minutos durante o banho. Outros são mais profundos, 20 a 30 minutos com touca. Frequência: faço2 vezes por semana.

Nutrição: Fase conhecida por ser a mais importante para os cabelos crespos, a nutrição repõe os lipídios, ou seja, oleosidade e gorduras naturais do cabelo. Lembra quando falamos de tipos de cabelo? Os cabelos crespos e cacheados ressecam mais e são facilmente danificados pelo vento, sol, além de químicas. Então, os cremes que tem manteigas e óleos vegetais, combinados com hidratantes, ajudam muito a manter esses cabelos saudáveis. Os cremes de nutrição vêm identificados, eles normalmente têm óleos (óleo de argan, macadâmia, amêndoas, coco, oliva), manteigas (karité, cupuaçu, cacau, abacate) na composição.

Essa etapa traz força e vitalidade e pode ser feita pela umectação, que é nutrição com óleos vegetais puros. É importante saber se o óleo é vegetal puro ou se é mineral. Óleo mineral não traz os mesmos benefícios, geram efeito superficial apenas. Eu gosto muito da umectação noturna: coloco o creme no cabelo de noite e vou dormir. Tiro de manhã e lavo. Frequência: uma vez por semana.

Reconstrução: Esse processo é feito para repor as propriedades naturais da fibra capilar, ou seja, repor massa e queratina dos fios. A queratina é uma proteína que ajuda a formar as unhas e os cabelos, por isso, a reconstrução é importante para restaurar cabelos ressecados, quebradiços e que já foram danificados por processos químicos. Mas, temos que tomar cuidado nessa etapa: muita queratina pode ter efeito contrário. O cabelo fica enrijecido, sem brilho, o pente nem passa. Então pode quebrar com facilidade e não é isso que queremos!

Há duas formas de fazer reconstrução: com máscaras (procedimento igual de hidratação) ou com cauterização com queratina líquida. Eu faço com queratina: lavo o cabelo, passo a queratina, deixo 10 minutos. Volto pro chuveiro e passo por cima uma máscara de hidratação (para amaciar! Cabelo fica muuuuito rígido!) e deixo mais 5 minutos. Depois enxáguo. Frequência: 1 vez por mês.

Esses foram as três fases para montar o cronograma. No próximo post vou montar o meu com vocês!

Beijos,  Bruna Dias

Beleza nossa de todo dia

Beleza nossa de todo dia

Carta às futuras transitetes

Desde que comecei a transição capilar, me questiono muito o que eu considero belo. Nunca me imaginei cortando o cabelo tão curto. Até mesmo quando tinha cabelo cacheado quase nunca cortava com medo de “inchar”. Tanta coisa mudou, comecei a despertar minha forma de olhar as pessoas e buscar nelas algo verdadeiro, uma característica que me marcasse.

Por isso que o entendimento do que é belo varia de pessoa para pessoa. A transição pode te ajudar a descobrir um eu que estava perdido debaixo daquele cabelo todo. Você pode amar essa nova pessoa ou pode querer nunca ter conhecido. E isso é tão normal.

Uma coisa que eu pensava muito durante a transição era que naquele  processo podia surgir uma Bruna que não era eu de verdade. Era uma transição, eu tinha certeza que me sentiria mal, evitaria olhar no espelho algumas vezes, mas estava num caminho necessário que valeria a pena – amém.

O pior que a gente pode fazer é se comparar aos outros a todo momento. Cada um é cada um. Isso é o principal para conseguir viver minimamente feliz. A chuva de cabelos com volume e definição que surgem nas nossas timelines podem nos animar ou fazer nos decepcionarmos com as nossas próprias madeixas. E a transição deve servir para você descobrir e conhecer melhor cada curvatura que seu cabelo vai te apresentar, não importa se 3B ou 4C*.

Você não vai ficar mais bonita ou não por causa do cabelo. Mas porque muitas outras coisas vão mudar, mesmo que volte a alisar. Uma coisa triste é pensar que você nem sabe mais “como era seu cabelo antes das escovas”. – Você só conhece você mesma por foto?

A única forma de saber se vamos gostar ou não, é tentando. Se você sente vontade, então experimenta, se joga nessa! Depois me conta 😉

* Vou postar sobre curvaturas essa semana.

Bruna Dias 

A escolha cacheada (perfeita)

A escolha cacheada (perfeita)

Não foi do nada. Acho que pode ter sido uma construção. Sim, eu fui bombardeada por meninas mostrando seus cabelos nas redes sociais, testando produtos super baratos que faziam efeitos incríveis, falando nomenclaturas que eu nunca tinha ouvido falar – em cabelos parecidos com o meu natural. Então eu pensei diversas vezes porque eu estava usando tanto tempo tentando ser algo que não era eu. Não é entrar em outro padrão, é refletir quem realmente somos. E dessa reflexão você pode simplesmente achar que o melhor é continuar alisando. Não é crime.

Eu decidi que não queria mais, cansei.

Pensar no secador e na chapinha começava a me dar preguiça. Em dezembro de 2016 fiz a última progressiva. Ainda não pensava em parar, eu amava aquele cabelo. Era sinônimo de beleza, feminidade, sensualidade…

Aos poucos fui amadurecendo a ideia. Já tinha tentado há um tempo e na primeira ondinha do primeiro mês, desisti.

Fui amadurecendo mais.

Comprei cremes.

Parei de fazer chapinha.

Entrei na transição.

Agora eu fazia parte de um time de meninas que resolveram se transformar nelas mesmas. E quanto mais eu procurava, mais gente eu achava. Mais nomes de produtos novos eu aprendia. 3abc, 4abc, caramba… quantas nomenclaturas!

E a transição se consolidou quando eu comecei a cortar as partes alisadas. Uma vontade de tirar aquilo tudo, mas calma! É meu cabelo! Vai devagar… Cortei três vezes progressivamente.

Senti aquilo mudando dentro de mim, desapegando. Estava me apaixonando pelas texturas novas. Havia dias em que eu passava horas tocando nos cachinhos.

Fiz texturização, fitagem, usei rolinho, Comprei e testei MIL cremes… gastei tanto naquele cabelo que não era mais (m)eu! O desgraçado não queria aceitar: cortei.

No dia 24 de junho foi o dia do BC. Tanta gente me apoiou. Eu chorei e não foi arrependimento. Foi por uma emoção que não conhecia. A transição capilar acabou, mas eu ainda estou em transformação. Por isso, convido as transitetes (e as cacheadas em geral) para me conhecer, descobrir, testar coisas novas e o mais importante: se conhecerem melhor comigo! Vem fazer parte dos meus Dias de Cacho!

Agradeço especialmente Janaina Lellis e Debora Lafosse, que me ajudaram a criar este blog. William Guedes e Luís Marques, incentivadores queridos. Hernane Souza, que me provou que gostar de alguém é muito mais do que gostar só da aparência de alguém.  E minha mãe Rose Dias, que me atura todos os dias. Amo vocês!

Bruna Dias 

*Crédito da imagem: Cacheadas em Transição