Livro infantil ‘Meu crespo é de rainha’ incentiva meninas negras a amarem seu cabelo crespo

Livro infantil ‘Meu crespo é de rainha’ incentiva meninas negras a amarem seu cabelo crespo

Estamos vivendo anos de muitas mudanças e crescimento da aceitação e autoafirmação de pessoas negras e cacheadas, mas como as crianças estão sendo inseridas neste contexto? Sabemos que muitas meninas, e meninos também, cada vez mais novos, tentam se encaixar em padrões de beleza pautados numa realidade inalcançável. Não é muito difícil seguir alguém no Instagram, que um dia levanta uma bandeira e no outro está mostrando como é maravilhoso abdicar das coisas que gosta pra ter como recompensa ser magro e ficar bem em selfies. Voltamos pra primeira pergunta: como as crianças lidam com isso? Provavelmente mal. Multiplica isso por dez (ou mais) quando falamos de meninas negras.

Na última semana, duas pessoas muito queridas me marcaram em posts sobra a divulgação do livro “Meu Crespo é de Rainha”, lançado pelo Boitatá, selo infanto-juvenil da editora Boitempo.

Créditos: Divulgação/Boitatá

O livro, na verdade, foi publicado pela primeira vez em 1999, por bell hooks. O Word até tentou colocar o nome da autora em letras maiúsculas, mas ela prefere assim, tudo minúsculo, do jeitinho que tá aqui. É um apelido (ela se chama Gloria Jean Watkins!) que escolheu para homenagear os sobrenomes da mãe e da avó e, ao mesmo tempo, sem letras maiúsculas, mostrar que existem coisas mais importantes que títulos e nomes. É uma transgressão gramatical pra indicar que o conteúdo é o essencial.

 

Escritora, professora e intelectual afro-americana, bell hooks escreveu o primeiro livro  depois de testemunhar um ato de racismo dentro de uma escola primária do Brooklying, nos EUA, quando uma professora leu para as crianças uma história sobre cabelos “ruins”. A resposta de hooks foi o livro “Happy to be nappy” (“feliz por ter cabelo ruim”), para contar que cabelos crespos também são cheiros e macios. (fonte: NEXO-CATRACA LIVRE)

O livro é para ser lido em voz alta para crianças a  partir de três anos, e é apresentado em forma de um poema rimado, celebrando de forma positiva e elogiosa a cabeleira crespa e cacheada, convidando crianças negras (ou não) a entender e buscar sua verdadeira identidade.

“Meu Crespo é de Rainha” traz ilustrações de Chris Raschka e tradução de Nina Rizzi. Para essa versão brasileira, a editora contou com a ajuda de  Ana Paula Xongani (ela tem um YouTube sobre comportamento, racismo e estéticas negras), que fez uma ilustração linda pra capa do livro, olha aqui do lado! ❤

Só conheci agora o trabalho da Xongani. O NEXO fez uma entrevista com ela, destaco duas falas:

“É como se o cabelo fosse o florescer dessas discussões. Como se fosse a autoafirmação disso. Quando uma mulher começa a deixar seus cabelos crespos, a assumir a transição capilar, é um processo de dentro para fora, um processo interno que se revela no exterior da cabeça”. – Olha a transição aquiiii! Eu fico muito feliz com a quantidade de pessoas (gente, homem também!) que entram em transição. Mas espero que cada vez mais gente não alise o cabelo por pressão para entrar em um padrão! Espero que esse tipo de livro ajude ❤ 

“A gente sabe que as crianças negras não se veem representadas na mídia, nos livros, nos livros didáticos. Elas não estão ocupando esse lugar do belo, do carinhoso, do bonito. É esse o processo de invisibilidade. Ser uma criança negra no Brasil significa crescer sem se ver”. – Eu sempre penso como as pessoas desconfiam da nossa capacidade (dos negros) de sermos fofos, carinhoso, cuidadosos, delicados e educados!  Parece que são características só de pessoas brancas e isso tem que ser desmitificado.

images (1)Então gente, esse livro tem tudo a ver com os temas que falamos por aqui, porque assim como diz Xongani, quanto mais cedo nossas crianças tiverem esse tipo de ferramenta, mais cedo vão entender que ser quem a gente é, é simplesmente incrível, e o quanto antes irão perceber o racismo e lutar contra isso!

Deixo aqui o link da matéria completa do NEXO e do Catraquinha. E um obrigado especial pra Paula Sarapu e Ana Laura que me indicaram a leitura. ❤

Ah, Ana Xongani tem uma loja com coisas lindas: http://xongani.com!

Beijos, Bruna Dias 

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