Transição capilar e (é) amor próprio

Transição capilar e (é) amor próprio

Fiz tópicos sobre temas que eu gostaria de escrever até o dia em que completaria 1 ano de big chop (24 de junho). Um deles é “aceitação”. Eu acho que não sou a melhor pessoa para falar sobre isso. E talvez por isso, eu seja uma boa pessoa para falar sobre. Aceitação é assim. Nunca me achei no lugar para falar. Apesar de sempre ter achado um absurdo tudo que fazem contra alguém (contra mim) apenas pela pessoa não estar dentro de padrões, eu não me sentia confortável para confrontar situações do tipo. Porque eu nunca me reconheci. Restringindo o assunto ao tema cabelo, nunca aceitei o meu. Achava muito cheio, não definido, estranho, feio. Os tratamentos químicos foram a solução para toda minha insegurança com meus cachos. Foram aproximadamente quatro anos alisando e muitos outros antes fazendo relaxamentos.

A transição capilar esbarrou em uma série de problemas que eu tinha comigo mesma, mas que nunca tinha falado em voz alta, para que eu mesma pudesse me ouvir.  E então a transição foi muito mais do que uma mudança de cabelo. O que mais me surpreende é que eu lembro claramente dos momentos em que eu recusava qualquer pensamento sobre cortar ou parar de alisar o meu cabelo. Tento encontrar uma linha de divisão entre não querer e ter a certeza de que queria mudar. De que precisava mudar. Nunca encontro, acho que ela não existe. Vi muita gente, muita mulher negra mostrando para ela e para o mundo como ela era linda e incrível com seu cabelo, com sua cor, com seu volume. Acredito que foi um reconhecimento no outro. Essas imagens montaram um esquema de identificação na minha cabeça e o resultado foi: você pode ser feliz sendo… você.

E é por isso que estou escrevendo este texto. Quando digo que me sinto mais negra hoje, não quer dizer que você que alisa, seja menos negra que eu. Essa relação não faz sentido e não existe. Quando eu  digo que me sinto mais negra que nunca, quero dizer que eu, Bruna Dias, me reconheço como negra, me sinto representada, representando, tudo junto e misturado. Tenho consciência da minha cor, das milhares de conclusões precipitadas que as pessoas tiram antes mesmo de me conhecer, dos comentários negativos, do preconceito. Mais importante do que isso, tenho plena consciência de que eu quero falar com outras pessoas que são como eu sou, essas querem me ouvir, elas precisam se reconhecer em mim ou em outras como nós, elas precisam saber que podem ser apenas elas mesmas.

Às meninas brancas que estão em transição, meu respeito não é menor. Não podemos comparar, porque comparar é diminuir. Desejo força e, acima de tudo, a sensibilidade de perceber que o motivo para que vocês não aceitassem o cabelo cacheado também é o preconceito. E que por isso: Nada de diminuir a transição das outras. Nada de colocar a transição como um simples desejo de mudar. É mais do que isso, mesmo que você ache que não.

Hoje eu sinto que o tempo passou muito rápido, meu cabelo cresceu e continua crescendo e minha dedicação é cada dia maior. Não sou uma mulher completamente engajada, mas entendo que qualquer gesto é importante.

A transição até hoje foi o maior abraço que eu me dei. Com muitos altos e baixos, episódios de amor e ódio. Mas, com certeza, um grande carinho e aplicação na prática de amor próprio.

Beijos,

Bruna Dias

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